
Renascimento da educação
Miguel Abambres
Actualizado a 17 de Julho de 2026
Publicado a 22 de Outubro de 2025
Introdução
Um inquérito de Janeiro de 2025, a 2529 professores de escolas públicas em Portugal, revelou¹ ² que 59% já tinha sido vítima de agreções na escola, 53% já tinha sofrido agressões por parte de encarregados de educação, e que as direções escolares eram apontadas como as principais perpetradoras de coação e ameaças contra docentes. Por estes e outros³ ⁴ ⁵ factos/relatos, não será de admirar que haja um défice crescente de professores em Portugal (e noutros países ditos desenvolvidos). O nosso ensino está em colapso progressivo; trata-se de uma crise com raízes culturais e geracionais. Apresentam-se em seguida alguns relatos – já vividos na 1ª pessoa – sobre a realidade do sistema escolar em Portugal, público ou privado.
Criaram uma escola de facilitismo crónico, onde grassa a indisciplina, o desinteresse, a apatia e a total desvalorização do conhecimento e do esforço individual implícito ao ato de aprendizagem.
A escola pública arrisca transformar-se numa tragédia até 2030 por falta de planeamento estrutural e por políticas cínicas e ineficazes.
A criança-rei submeteu os encarregados de educação à desvalorização dos professores e nivelou por baixo o clima das escolas.
A falta de rigor na avaliação e a tolerância à mediocridade criaram uma geração de estudantes desprovidos de ferramentas essenciais para o sucesso académico e profissional.
Pertenço a uma geração em que os pais (…) não iam à escola protestar notas dos filhos, ou amedrontar os professores.
O conhecimento dos alunos está em regressão acentuada, mas os exames não mostram isso (…) Os exames nacionais são feitos para não alarmar ninguém (…) Um dos problemas de que se fala muito no acesso ao ensino superior é a inflação das notas…
Urge um sistema político renovado, capaz de garantir a dignidade humana e a sobrevivência da espécie. O necessário renascimento* da educação será dificilmente alcançado numa tradicional democracia.
Referências
1. Duarte JC (2025). “Realidade alarmante.” 59% dos professores dizem já ter sido vítimas de agressões, Observador. Arquivo.
2. Casanova F (2025). Mais de metade dos professores sabe na pele o que é “bullying”, Rádio Renascença. Arquivo.
3. Gaspar C (2024). O professor é um trabalhador por conta de outrem: o encarregado de educação, Público. Arquivo.
4. Sanches A (2025). Exames do secundário: sobem as notas de Português e Biologia, descem as de Matemática, Público. Arquivo.
5. Romeira A (2025). Metade dos alunos do 9.º ano com negativa no exame de Matemática, O Jornal Económico. Arquivo.
* O Renascimento surgiu em Itália no séc. XV, referindo-se a um período (c. 200 anos) de transição da civilização Europeia entre o fim da Idade Média e o início da era moderna. Caracterizou-se pelo ressurgimento da sabedoria e valores clássicos (i.e, dos Gregos e Romanos) após um longo período de declínio e estagnação socioculturais.
Uma nova escola
Exponho em seguida alguns ideais que sonho um dia ver implementados em alguma escola do meu país.

Menos “colegas-chefe” – a existência de coordenadores ou directores de departamento não só é desnecessária como insustentável; insustentável porque os ocupantes desses cargos tendem a agir com alguma prepotência e arrogância para com colegas docentes “hierarquicamente inferiores”; desnecessária porque uma instituição com directrizes claras previamente definidas, e continuamente revistas e atualizadas pela direção, não requer qualquer tipo de hierarquia entre docentes para que o seu trabalho seja feito correcta e eficientemente.
Menos burocracia e reuniões – um estudo recente⁶ envolvendo 76 empresas, as quais reduziram as suas reuniões ao longo de 14 meses, revelou que o maior aumento da satisfação do empregado foi conseguido quando se reduziram as reuniões em 60%, e a maior redução do stress aquando da eliminação total desses encontros (ver Figura 2).
A burocracia deve ser função do pessoal administrativo, com intervenção mínima dos docentes; já estes não deveriam ser obrigados a reunir-se (e.g, “conselhos de turma”), pois a comunicação assíncrona será mais que suficiente entre pessoas minimamente inteligentes (estamos a falar de professores, não é verdade?).

Menos avaliação – há escolas que impõem o tipo, a quantidade, a duração, e em certa parte a data dos elementos de avaliação sumativa (testes, trabalhos, questões-aula, etc) a aplicar a cada disciplina e em cada período.
Em disciplinas como matemática, evidência científica⁷ tem mostrado que testes com tempo limitado são a causa directa do início precoce de “ansiedade matemática” e de um fraco desempenho na disciplina. Sian Beilock, professor associado de psicologia na Universidade de Chicago (EUA), descobriu⁷ que quando as crianças são expostas a “stress matemático” são incapazes de resolver problemas matemáticos correctamente – o stress afecta a sua memória de trabalho (working memory), pilar fundamental da aprendizagem matemática.
A prevalência da ansiedade em testes é extensa e parece estar a aumentar, afectando indivíduos de diferentes faixas etárias e sexos, sendo possivelmente atribuível à maior frequência das avaliações nos tempos recentes (e à importância que lhes é atribuída)⁸.
Maior autonomia docente – a liberdade académica é a liberdade de professores e estudantes para ensinar, estudar e buscar conhecimento sem interferência ou restrição irracional da lei, regulamentos institucionais ou pressão pública; os seus elementos básicos incluem a liberdade dos professores para (i) investigar qualquer assunto que evoque os seus interesses intelectuais, (ii) apresentar as suas descobertas aos estudantes, colegas e outros, (iii) publicar os seus dados e conclusões sem controlo ou censura, e (iv) ensinar da forma que considerem profissionalmente adequada.
O professor Americano de educação Joseph Schwab (1909–1988) estudou programas curriculares. Ele defendeu – por ver o ensino como uma arte prática por natureza – que o professor deve usufruir de liberdade/autonomia no exercício das suas funções, bem como interferir na tomada de decisões curriculares⁹. À luz de Schwab, momentos de decisão sobre o que fazer, como, com quem e em que lugar, surgem centenas de vezes ao longo de uma jornada escolar diária, e surgem diferentemente em cada dia e com cada grupo de estudantes. Não há comando ou instrução que possam ser formulados com vista ao controlo desse tipo de comportamento e juízo artísticos.
Os professores não serão nem podem ser simplesmente instruídos sobre o que devem fazer […] Eles não são operadores de linhas de montagem, e não se comportarão como tal.
Joseph Schwab⁹
Andreas Schleicher é actualmente o director para a educação e competências da OCDE, sendo ele que fundou e supervisiona o programa PISA para avaliação internacional de estudantes de 15 anos em leitura, ciências e matemática. Schleicher afirmou em 2019 que os resultados de Inglaterra no PISA reflectiam a falta de confiança nos seus docentes, tendo inclusivé mencionado que alguns dos sistemas educativos mais bem sucedidos tinham regimes de inspeção escolar pouco rigorosos¹⁰.
Being an empowered teacher means having the professional autonomy to choose the most appropriate methods and approaches that enable more effective, inclusive and equitable education.
UNESCO
Na Finlândia, os professores têm autonomia pedagógica; podem decidir por si que métodos de ensino, manuais escolares e outros materiais usar nas suas aulas. Planeamentos detalhados do ano lectivo tão-pouco lhes são exigidos¹¹ ¹² ¹³. Também na Finlândia, as inspeções às escolas foram abolidas no início dos anos 90 do século XX, e o desempenho dos professores não é observado nem classificado. Ao invés, há discussões anuais com os líderes escolares onde lhes é dado feedback sobre a autoavaliação de cada docente. Além disso, exames nacionais realizados anualmente permitem avaliar o desempenho académico dos alunos por escola e por docente¹¹ ¹² ¹³.
Maior exigência – o nivelamento por baixo é apanágio da escola portuguesa há décadas, negligenciando o mérito em nome do lucro.
The best student in physics or mathematics, at school or university, is not one who memorizes formulae but one who is aware of the reason for them. For students, the more simply and docilely they receive the contents with which their teachers “fill” them in the name of knowledge, the less they are able to think and the more they become merely repetitive.
Paulo Freire
Menos alunos por turma – proponho turmas até 20 alunos, idealmente com 15 ou menos.
Mais silêncio – os benefícios do silêncio para a saúde e cognição são inegáveis; mas para o alcançar, o professor terá de poder impedir a presença em aula de todo e qualquer aluno indisciplinado que prejudique reiteradamente o ambiente de aprendizagem.
Proibição de IA e menos ecrãs – temas já abordados em A internet anti-social e Use antes a sua própria inteligência.
Aprender melhor – de uma vez por todas, os alunos e suas famílias devem compreender que ir à escola e assistir às aulas jamais será equivalente a aprender; por exemplo, na Matemática aprende-se essencialmente como resultado de um estudo regular e individual, teórico e prático, baseado na leitura, compreensão e escrita – em papel!
Condições necessárias à aprendizagem de qualquer disciplina intelectual:
– silêncio;
– atenção;
– paciência / brio;
– dedicação;
– ler e escrever em papel¹⁴ ¹⁵;
– questionar e esclarecer;
– compreensão teórica;
– praticar;
– errar;
– rever.
Referências
6. Laker B, Pereira V, Malik A, Soga L (2022). Dear Manager, You’re Holding Too Many Meetings, Harvard Business Review. Arquivo.
7. Boaler J (2012). Timed Tests and the Development of Math Anxiety, Education Week. Arquivo.
8. Yarkwah C, Kpotosu CK, Gbormittah D (2024). Effect of test anxiety on students’ academic performance in mathematics at the senior high school level, Discover Education, 3 (245), DOI. Arquivo.
9. Schwarz-Franco O (2022). Necessarily Free: Why Teachers Must be Free, Studies in Philosophy and Education, 41(3), DOI. Arquivo.
10. Lough C (2019). Pisa chief: ‘Mistrust of teachers holds England back’, Tes Magazine. Arquivo.
11. Ministry of Education and Culture – Finland, Finnish National Agency for Education (EDUFI) (2017). Finish education in a nutshell, ISBN: 978-952-13-6335-1, PDF. Arquivo.
12. Sharma S (2025). Perspective | How the world’s happiest country supports its teachers, EdNC. Arquivo.
13. Hart J (2017). The big lesson from the world’s best school system? Trust your teachers, The Guardian. Arquivo.
14. Traverso V (2025). Porque escrever à mão ainda é importante na era digital, National Geographic Portugal. Arquivo.
15. Konnikova M (2014). What’s Lost as Handwriting Fades, The New York Times. Arquivo.