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Use antes a sua própria inteligência

Miguel Abambres

Actualizado a 18 de Julho de 2026

Publicado a 26 de Junho de 2025

O colapso educacional

Os humanos, em geral, não gostam de pensar intensamente. Uma análise recente envolvendo mais de 170 estudos em 29 países, e 358 tarefas distintas (desde aprender tecnologia nova à prática de tacadas de golf), permitiu concluir que em todos os casos as pessoas sentiam maior frustração e stress quando tinham de usar mais o cérebro. Quando dados a escolher, tanto ratos de laboratório como humanos escolhem tipicamente o caminho da menor resistência¹.

A adaptação é fundamental ao desenvolvimento cognitivo, mas o distópico modelo de ensino prevalecente nas últimas décadas tem colocado o aluno no centro de tudo, negligenciando o professor.

Em A fábrica de cretinos digitais, o neurocientista Michel Desmurget (PhD) revela, com base científica, que a geração Z foi a primeira a ter um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao dos pais, contrariando o efeito Flynn. Essa tendência foi documentada em países onde os fatores socioeconómicos têm variado pouco, como a Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda ou França². Uma das principais causas dessa “descerebração” é o abusivo uso da tecnologia, sendo que nem o facto de serem apelidados de “nativos digitais” os torna especialmente competentes em informática². Um grupo de investigadores Canadianos estimou em 2022 que o excesso de tempo passado em frente a ecrãs durante o desenvolvimento cerebral aumentará, em fase adulta, o risco de demência relacionada com a doença de Alzheimer³.

Os testes PISA são feitos por alunos de 15 anos, e a geração Z alcançará(ou) essa idade em 2012-2027⁴; repare, na Figura 1, que é precisamente desde 2012 que se dão as descidas mais abruptas no desempenho médio da OCDE em matemática, leitura e ciência.

Figura 1. Evolução do desempenho médio da OCDE no PISA, entre 2003 e 2022⁵.

Se olharmos para os desempenhos de vários países em testes internacionais de matemática, leitura e ciência, como o PISA ou TIMSS/PIRLS, reparamos que os asiáticos superam os jovens ocidentais aos pontos em Matemática. Segundo o jornalista e escritor Britânico-Canadiano Malcolm Gladwell, essa discrepância tem uma raiz cultural; no oriente, valores como o esforço, a persistência, o brio, o respeito pelo professor e a responsabilidade têm sido fielmente transmitidos entre gerações.

Vídeo 1. Porque é que os jovens asiáticos superam os ocidentais em Matemática? (2021). Fonte do áudio.

E quando chegarem à Universidade, como será? Seria tenebroso⁶ ⁷ se o ensino superior se mantivesse fiel aos princípios de outrora; mas se desde 2007 os bacharéis são afinal licenciados e os licenciados são automaticamente promovidos a mestres, na era da “automação, controlo social e lucro infinito” a maioria dos diplomas académicos não passarão de tristes ilusões.

Referências

1. Ford C (2025). The case for using your brain — even if AI can think for you, Vox. Arquivo.

2. Velasco IH (2020). “Geração digital”: por que, pela 1a vez, filhos têm QI inferior ao dos pais, BBC. Arquivo.

3. Manwell LA, Tadros M, Ciccarelli TM, Eikelboom R (2022). Digital dementia in the internet generation: excessive screen time during brain development will increase the risk of Alzheimer’s disease and related dementias in adulthood, Journal of Integrative Neuroscience, DOI. Arquivo.

4. Wikipedia contributors (2025). Generation Z, Wikipedia – the free encyclopedia. Arquivo.

5. OECD (2023). PISA 2022 results (volume I): The state of learning and equity in education, OECD. Arquivo.

6. McMurtrie B (2024). Is This the End of Reading?, The Chronicle of Higher Education. Arquivo.

7. Heubeck E (2024). High School Students Think They Are Ready for College. But They Aren’t, EducationWeek. Arquivo.

Rumo à extinção

A inteligência artificial (IA) é uma área da ciência da computação com aplicações em diversas áreas do conhecimento, tendo tanto o potencial de melhorar e prolongar a vida do Homem, como de a destruir. Os seus maiores benefícios resultarão do emprego em investigação científica, permitindo por exemplo prever fenómenos climáticos, desastres naturais, ou antecipar o diagnóstico de doenças graves (e.g, cancro). Os seus maiores malefícios serão causados pela sua utilização massiva e quotidiana em tarefas tradicionalmente executadas exclusivamente pela inteligência e criatividade do Homem; este tipo de ferramentas, pertencentes actualmente a um tipo de IA denominada “generativa”, não só conduzirão ao declínio cognitivo e de saúde mental (e.g, C1, SM1, SM2) de quem a elas recorra amiúde, como serão usadas como armas de vigilância (e.g, V1), desinformação (e.g, D1, D2), difamação e fraude. Enquanto hoje se grita “inevitável IA”, “oportunidades da IA”, “uso responsável da IA” ou “revolução da IA”, amanhã encontraremos a educação ligada à máquina – alimentando a esperança dos que foram privados de pensar com ética e razão desde tenra idade.

Tem a coragem de usar a tua própria inteligência.

Immanuel Kant

Segundo o médico e neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, a inteligência artificial é uma ideologia de automação que visa o lucro infinito e o controlo social, não sendo nem inteligente nem artificial. Nicolelis considera ainda que a delegação desmedida de funções cognitivas às máquinas terá consequências nefastas para o Homem, temas discutidos nos seguintes vídeos.

Vídeo 2. Inteligência artificial é uma ideologia de automação que busca lucro infinito e controlo social (2025).

A IA é uma ideologia de automação que visa o lucro infinito e o controlo social, não sendo nem inteligente nem artificial.

Miguel Nicolelis

Vídeo 3. Que tipo de ser humano queremos formar nas nossas escolas? (2026).

O consumo de água e electricidade disparou nas empresas tecnológicas que dominam o mercado da inteligência artificial, uma vez que esses modelos – especialmente os de IA generativa para utilização massiva – requerem o processamento contínuo de quantidades gigantes de dados. A água é necessária para os sistemas de arrefecimento dos servidores nos centros de dados, evitando o dano de componentes chave (e.g, processadores) por sobreaquecimento. Por exemplo, um email de 100 palavras escrito pelo ChatGPT (modelo GPT-4) chegou a consumir 1/2 litro de água, bem como energia suficiente para carregar totalmente 7 iPhones Pro Max. Um estudo recente revelou que a infraestrutura do ChatGPT consome por dia electricidade suficiente para “alimentar” todo o Empire State Building durante 1.5 anos⁸ ⁹ – é absolutamente ridículo. Em 2023, a Google consumiu no total (não apenas devido à IA) mais de 24000 Milhões de litros de água (+ 17% que em 2022), a Microsoft mais de 7500 Milhões de litros (+ 22.5%), e a Meta mais de 2500 Milhões de litros de água (+ 17%). E já em 2022 o consumo tinha aumentado consideravelmente relativamente a 2021⁹ ¹⁰. Estes consumos astronómicos agravarão a já débil sustentabilidade do planeta.

O Homem é o único organismo vivo que conspira para a sua própria extinção.

Miguel Nicolelis

Referências

8. Wright I (2025). ChatGPT Energy Consumption Visualized, Business Energy UK. Arquivo.

9. Sellman M, Vaughan A (2024). ‘Thirsty’ ChatGPT uses four times more water than previously thought, The Sunday Times. Arquivo.

10. Berreby D (2024). As Use of A.I. Soars, So Does the Energy and Water It Requires. E360, Yale School of the Environment. Arquivo.

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