
A internet anti-social
Miguel Abambres
Actualizado a 4 de Julho de 2026
Publicado a 9 de Junho de 2025
Introdução
As aplicações (apps) sociais, quando bem concebidas, poderão ter enorme utilidade, permitindo comunicação online pública ou privada num ambiente onde o respeito, segurança e privacidade de todos seja uma prioridade. A única forma de saber se essas plataformas foram bem concebidas é através da transparência, ou seja, tornando público o software (ou código de programação) utilizado. Dessa forma, qualquer especialista em programação web poderá analisar o código e reportar/denunciar eventuais problemas relacionados com bugs, falta de segurança ou alegadas funcionalidades que na realidade não passam de uma desonesta estratégia de marketing. Naturalmente que, com o aumento da popularidade de um produto, qualquer discrepância grave entre o produto real e o que de bom sobre ele é alegado (pela empresa que o detém ou nos media), seria prontamente noticiada. Um software cujo código seja de livre acesso ao público diz-se de código aberto, ou open source em Inglês, sendo que alguns projectos permitem até que terceiros façam propostas técnicas para corrigir bugs ou introduzir novas funcionalidades. As plataformas mais populares para alojar e gerir projectos de software são o GitHub e o GitLab.
Claro que nem todos os softwares requerem ser open source para ser altamente credíveis. A transparência de um produto tecnológico é tanto mais relevante quanto maior o risco de actos ilícitos ou anti-éticos por parte ou contra os utilizadores. Por exemplo, tipicamente não se exige que um website – que serve apenas para os utilizadores consumirem os conteúdos aí publicados pelo seu dono – seja tão transparente como uma aplicação onde cada utilizador crie a sua conta para interagir com outros e/ou publicar ou armazenar conteúdo próprio. O que sim se recomenda sempre é que o navegador web (ou browser) utilizado para aceder a qualquer website ou aplicação seja transparente e focado em segurança e privacidade.
Desde o advento da internet, no final do séc. XX, que esta tem sido controlada por gigantes empresas tecnológicas – as chamadas Big Tech (e.g, Google, Apple, Meta (ex-Facebook), Amazon, Microsoft). Inicialmente, antes do boom dos smartphones e da internet social, a controvérsia era pouca. Mas o sucesso comercial desses impérios foi transformando a ideia original de uma internet aberta, descentralizada e salubre em algo verdadeiramente insustentável.
Monopólio
O domínio das Big Tech já transcende o software. Estimava-se que em 2020 o Facebook e a Google juntas seriam donas de cerca de 29% dos cabos submarinos de internet que percorrem o mundo¹. Já no software, a disparidade das quotas de mercado entre as gigantes e a concorrência é de tal forma abismal que é razoável apelidar o domínio das Big Tech de monopólio. Por exemplo, (i) a Meta domina largamente as tradicionais redes sociais e messengers através do Facebook, Instagram e WhatsApp, (ii) a Google domina os browsers, motores de pesquisa e alojamento/streaming de vídeo através do Chrome, google.com e YouTube, respectivamente, e (iii) a Microsoft e a Apple dominam os sistemas operativos para computadores pessoais através do Windows e macOS, respectivamente. Esta insustentável concentração de poder foi-se agravando com o tempo através da aquisição de produtos tecnológicos alternativos que, segundo essas grandes corporações, poderiam colocar em risco o seu domínio comercial. Por exemplo, a Google comprou o YouTube e o Waze, o Facebook comprou o WhatsApp e o Instagram, e a Microsoft comprou o LinkedIn e o GitHub.
Regulamentação em defesa da concorrência (antitrust regulation, em Inglês) existe para prevenir negócios de centralizar em si demasiado poder sobre uma indústria. Em vários países, legisladores podem agir nesse sentido e penalizar as empresas com multas ou exigir a sua divisão. Muitas acusações e condenações têm tido lugar, mas ao que parece não compensam a velocidade de crescimento das Big Tech, pois o problema está muito longe de ser solucionado.
Qualquer monopólio envolve perigos que se assemelham aos dos regimes autoritários, nomeadamente a censura, vigilância, desinformação ou manipulação comportamental² ³ ⁴ ⁵.
Referências
1. Martin H (2019). Undersea Espionage: Who Owns Underwater Internet Cables?, The McGill International Review. Arquivo.
2. Ghaffary S, Morrison S (2021). The case against Big Tech, Vox. Arquivo.
3. Simões P (2024). Afinal era verdade: Facebook e Google ouviam tudo o que dizia perto do seu smartphone, pplware. Arquivo.
4. Harada J (2021). The Instagram ads Facebook won’t show you, Signal blog. Arquivo.
5. Hern A (2019). Apple contractors ‘regularly hear confidential details’ on Siri recordings, The Guardian. Arquivo.
Denúncias
Edward Snowden é um ex-funcionário da CIA (Central Intelligence Agency) e ex-subcontratado da NSA (National Security Agency). Em 2013 vazou documentos classificados que revelaram a existência de programas de vigilância massiva globais do governo Americano, os quais envolviam empresas de telecomunicações e gigantes tecnológicas⁶ ⁷.
Frances Haugen é uma denunciante e ex-empregada do então Facebook, tendo testemunhado em Outubro de 2021 perante o congresso Americano para alegar que a empresa (i) priorizava lucros astronómicos em detrimento das pessoas, (ii) prejudicava as crianças e (iii) estava a desestabilizar as democracias⁸. Haugen vazou dezenas de milhares de páginas de documentos internos da empresa, as quais ficaram conhecidas como Facebook papers e serviram de base a diversas investigações. Mostrou-se particularmente que empregados da empresa estavam cientes dos impactos nefastos dos seus algoritmos no bem estar dos utilizadores.
Facebook puts astronomical profits before people, harms children and is destabilising democracies.
Francis Haugen
Milhares de pais recorrem globalmente aos tribunais para responsabilizar as empresas tecnológicas pelo que alegam ter sido causado pelos seus algoritmos ou negligência. O vídeo seguinte apresenta algumas consequências trágicas alegadamente associadas ao uso de apps sociais das Big Tech, bem como relevantes testemunhos de alguns dos seus ex-empregados.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o uso abusivo da internet aumentou drasticamente nas últimas décadas, arrastando consigo consequências nefastas para a saúde. No vídeo seguinte é entrevistado o Dr. Cristiano Nabuco, psicólogo (PhD) e coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas da Universidade de São Paulo (Brasil). Para ele, as redes sociais podem, pela 1º vez na história da humanidade, conduzir à interrupção da consolidação do conhecimento.
Uma investigação da Amnistia Internacional mostrou que a página “Para ti” do TikTok pode facilmente arrastar crianças e jovens interessados em saúde mental rumo a espirais de conteúdos potencialmente nocivos, incluindo vídeos que idealizam e fomentam o pensamento depressivo, as autolesões e o suicídio⁹. Outra investigação¹⁰ revelou que vídeos curtos (e.g, 60 s ou menos) degradam a nossa capacidade para reter intenções.
Se há coisa que a história recente nos ensinou é que os nossos amigos industriais não desistem facilmente dos seus lucros, mesmo quando estes existem à custa da saúde dos consumidores.
Michel Desmurget
O dilema das redes sociais é um híbrido documentário-drama da Netflix de 2020 que revela como as redes sociais estão a reprogramar a civilização, com tecnólogos a soarem o alarme sobre as suas próprias criações.
Referências
6. Greenwald G, MacAskill E, Poitras L (2013). Edward Snowden: the whistleblower behind the NSA surveillance revelations, The Guardian. Arquivo.
7. Wikipedia contributors (2025). Edward Snowden, Wikipedia – the free encyclopedia. Arquivo.
8. Milmo D, Paul K (2021). Facebook harms children and is damaging democracy, claims whistleblower, The Guardian. Arquivo.
9. Amnistía Internacional (2023). Empujados a la oscuridad, Amnistía Internacional. Arquivo.
10. Chiossi F, Haliburton L, Ou C, Butz AM, Schmidt A (2023). Short-Form Videos Degrade Our Capacity to Retain Intentions: Effect of Context Switching On Prospective Memory, DOI. Arquivo.
Descerebração
Em A fábrica de cretinos digitais, o neurocientista Michel Desmurget (PhD) alerta que o corpus de investigação que liga o consumo digital recreativo e os riscos para a saúde é impressionante, afectando campos como a obesidade, anorexia/bulimia, tabagismo, alcoolismo, toxicodependência, violência, depressão, ou sedentarismo. Para Desmurget há um abismo entre a perturbadora realidade científica e o regularmente tranquilizador (e até entusiasta) discurso jornalístico sobre o impacto da revolução digital nas novas gerações.
Quanto mais “inteligentes” se tornam as aplicações, mais substituem o nosso pensamento e nos permitem tornarmo-nos idiotas.
Michel Desmurget
Será que o excesso de consumo de conteúdo digital pobre prejudica o cérebro? Segundo Desmurget, há evidência científica que mostra que a geração Z (também conhecida como “nativos digitais”) é a primeira a ter um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao dos pais, contrariando o efeito Flynn. Essa tendência foi documentada em países onde os fatores socioeconómicos têm variado pouco, como a Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda ou França¹¹. Por outro lado, a “palavra” do ano de 2024 para a Universidade de Oxford foi brain rot¹² (podridão cerebral, em Português), a qual se refere à suposta deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa como resultado do consumo excessivo de conteúdo trivial ou de baixa qualidade, em particular na internet.
Os testes PISA, criados pela OCDE para avaliar sistemas educativos a nível global, medem o desempenho académico de alunos de 15 anos a matemática, ciências e leitura. A geração Z alcançará(ou) essa idade em 2012-2027¹³ ¹⁴; note-se na Figura 1 que é precisamente desde 2012 que se dão as descidas mais abruptas no desempenho médio da OCDE.

Referências
11. Velasco IH (2020). “Geração digital”: por que, pela 1a vez, filhos têm QI inferior ao dos pais, BBC. Arquivo.
12. Oxford University Press (2024). ‘Brain rot’ named Oxford Word of the Year 2024, Oxford University Press. Arquivo.
13. OECD (2023). PISA 2022 results (volume I): The state of learning and equity in education, OECD. Arquivo.
14. Wikipedia contributors (2025). Generation Z, Wikipedia – the free encyclopedia. Arquivo.
15. Dekkers TJ, van Hoorn J (2022). Understanding problematic social media use in adolescents with attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (ADHD): A narrative review and clinical recommendations, DOI. Arquivo.
Notas finais
Não se deparou ainda com um discurso público cada vez mais pobre e uma misantropia cada vez mais rica?, consequência natural dos efeitos colaterais da tecnologia no cérebro e do colapso educacional global. Esqueça as redes sociais; volte a estudar, inscreva-se numa actividade desportiva, faça voluntariado, organize (pequeno-)almoços em grupo – volte a estar com pessoas ao vivo. Só depois adicione as que quiser ao Signal para comunicarem remotamente de vez em quando.
Em prol da saúde física e mental, recomendo os 16 anos como idade mínima para utilização de smartphones, bem como uma redução significativa do uso do telemóvel em qualquer idade. Olhar muito tempo para o telemóvel sobrecarrega a coluna cervical, podendo conduzir ao “síndrome do pescoço de texto”¹⁶; além disso, a luz azul emitida pelo ecrã causará provavelmente perturbações do sono, e investigação científica tem sugerido que o uso do telemóvel constitui, a longo prazo e devido à radiação emitida, um risco para a saúde¹⁷.
Deixei de usar o smartphone com regularidade ou fora de casa desde o final de 2025.